10/10/2006 - O MITO DA MANTA

      - " Alô ! ..; gostaria de falar com o arquiteto Silvio. Ele se encontra ?... "

      A voz da síndica era polida e um pouco cansada; típica de uma dona de casa às voltas com filhos, roupas, diarista, compras de mercado e sobrecarregada pela missão de cuidar do seu prédio ( já que os demais condôminos, alegando compromissos mais importantes e "falta de tempo", não se dispunham a enfrentar a tarefa ).

      - " Pois não !.. É ele mesmo... Em que posso ajudá-la ?... "

      - " É o seguinte: recebi seu prospecto, sobre defeitos construtivos e infiltrações de chuva. Nosso prédio vem sofrendo, há muito tempo, com gotejamentos de água, principalmente sobre o subsolo. A construtora, nos primeiros 5 (cinco) anos, executou - com inegável boa vontade - vários reparos, inclusive no piso do terraço térreo; mas o problema voltava a aparecer alguns meses após cada reforma. Depois, como a empresa não mais compareceu ( alegando término da garantia legal ), fizemos mais duas tentativas de "trocar a manta" e o piso existente, contratando firmas que se diziam especializadas. Pagamos à primeira cerca de R$ 8.000,00 e, como a infiltração retornou logo após as primeiras chuvas, cobramos a garantia contida na proposta (cinco anos); a firma recusou-se a atender e nós entramos com uma ação judicial de indenização. Enquanto isso, já que o problema persistia, resolvemos, em Assembléia Geral , contratar uma segunda empresa, que cobrou R$ 11.000,00 pela completa troca da manta e substituição, do piso, por "cerâmicas de última geração". Para nosso desespero, passados cerca de três meses da conclusão, trechos da laje do subsolo voltaram a "lacrimejar" um líquido esbranquiçado sobre alguns veículos, gerando indignadas reclamações dos proprietários e ameaças de ações contra o condomínio. Em nova e recente assembléia, ficou decidido que faríamos mais uma reforma, convidando empresas realmente idôneas, para a tomada de preços. Aí , relendo seu prospecto, resolvi telefonar e convidá-lo para participar desta concorrência. "

      - " Bom ,... vamos ver... Sra..... como é mesmo o seu nome ? ..."

      - " Ivete .... ".

      - " Bem, Dona Ivete, nós atuamos da seguinte forma: a primeira visita é curta e sem qualquer custo; mostraremos cópias de trabalhos anteriores e examinaremos o prédio de forma rápida. Em seguida, apresentaremos detalhada proposta para elaboração de um Laudo Técnico , do qual constarão minuciosos diagnósticos dos problemas do edifício ( ilustrados com fotografias ) , bem como especificações de produtos, materiais e procedimentos - tipo "receitas de bolo" - , para que o condomínio possa colher propostas tecnicamente iguais e de firmas realmente habilitadas, de modo a eliminar ( ou minimizar de forma acentuada ) os danos existentes. Podemos, também, assessorar o condomínio na preparação de editais para tomadas de preços e na posterior fiscalização dos trabalhos. "

      A síndica fez um breve silêncio e prosseguiu, mostrando claro desapontamento :

      - "Mas... o senhor não faz reformas da manta e do piso ?! ... Então, me desculpe por tomar seu tempo, mas a Assembléia Geral decidiu pela coleta de propostas para uma nova reforma e eu pensei que o senhor executaria esse tipo de serviço. Acho que eu não entendi muito bem o que consta do seu prospecto!... "

      Acostumado a tais reações, tentei explicar :

      - "Dona Ivete, nosso trabalho é semelhante ao de um clínico geral. Não fazemos "cirurgias" nos prédios ; ou seja: não somos uma empreiteira de reformas . Assim, nossos diagnósticos não sofrem sequer a tentação de "empurrar" os condomínios para "urgências" , para "trocas de manta" , etc , já que a execução dos serviços não é nosso objetivo . Como a Sra. vê, nossa assistência é isenta e sem qualquer "rabo preso" com eventuais empreitadas. Aliás, à propósito da sua ligação, podemos afirmar que a grande maioria dos prédios não possui falhas na "manta vedante"; na verdade, embora a manta possa conter danos localizados, a água da chuva penetra - com franca predominância e enorme freqüência - por vias indiretas e pouco perceptíveis, dando a falsa impressão de que "a manta está rompida exatamente acima dos gotejamentos observados" . Por isto, o primeiro e natural impulso dos leigos é "culpar" a impermeabilização original (ou aquelas posteriormente executadas), gerando gastos inúteis ou - no mínimo - fora de hora e da seqüência técnica mais racional . Isto não causa surpresa, pois a construtora do edifício, a julgar pelo que a senhora me conta, adotou a mesma atitude durante os primeiros cinco anos; e o condomínio, ao tentar simplesmente copiá-la, vem efetuando reformas ineficazes e - o que é pior - muito onerosas !...

      Após novo silêncio, a educada síndica não conseguiu esconder o constrangimento e a pressa em interromper a ligação :

      - " Dr. Silvio, o que o senhor diz parece fazer sentido, mas preciso cumprir a decisão da assembléia: colher propostas para troca da manta e do piso no terraço térreo !.. Por isso, peço desculpas por incomodá-lo; e, se precisar dos serviços que o senhor descreveu, voltarei a ligar, OK ? "

      Ainda pensei em novos argumentos, capazes de evitar que aquele condomínio (jamais soube o endereço ou nome do prédio), efetuasse mais uma reforma, provavelmente cara e ineficaz; mas a experiência e os cabelos brancos, colecionados na longa caminhada profissional, impediram o inútil discurso. Conformado, limitei-me a responder:

      - " Ora!..não foi incômodo algum! ... Quando precisar, ligue; estarei à disposição !..

      - " Obrigado, Dr. Silvio . Tenha um bom dia . "

      - " Igualmente, Dona Ivete . Até mais e ... boa sorte !.. "

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