10/10/2006 - TERCEIRA PELE

     O jornal "Folha de São Paulo" publicou artigo, há poucos anos, no qual aborda a expressão "Terceira Pele" para identificar a moradia do ser humano.

      Ou seja: nós teríamos, na verdade, segundo aquela matéria, TRÊS "camadas de pele":

      a) Primeira Pele: aquela, de nascença ou "de fábrica", concedida pelo Criador, distinguindo as raças branca, amarela, negra, etc.
      b) Segunda Pele: roupas ou vestimentas, que ocultam a nudez animal e nos protegem de temperaturas estranhas à do nosso corpo;
      c) Terceira Pele: o abrigo, a moradia.

      A abordagem é extremamente interessante e oportuna, permitindo fazer algumas considerações sobre características e desempenhos das "cascas" que nos envolvem:

      1 - "PRIMEIRA PELE"

      O exame, ao microscópio, permite ver que nossa pele, orgânica, é muito mais porosa, fissurada ou "esburacada" do que pode parecer ao olho nu. Pelas mesmas fendas que expulsam o suor (expelindo toxinas e contribuindo para o equilíbrio térmico do corpo), podem penetrar cremes hidratantes, pomadas medicinais, variadas impurezas, bactérias, fungos, ácaros e diversos produtos tóxicos. Para se ter uma idéia da vulnerabilidade dessa "casca", basta a terrível informação sobre o gás dos nervos "VX", sintetizado pelos norte-americanos e suecos a partir de 1952, que age sobre as sinapses transmissoras do nosso sistema nervoso central: bastam milésimos de uma grama, absorvidos pela pele, para matar um ser humano (se a vítima "tiver sorte", a agonia durará apenas poucos minutos, passando por suor abundante, tonteiras, vômitos, perturbações da visão, fezes e urina expelidas descontroladamente, rigidez muscular e asfixia final). Se é apavorante imaginar centenas de toneladas de tal substância armazenadas em depósitos militares, deveríamos atentar, também, para os perigos menores que rondam a nossa "embalagem" corporal e que podem, no longo prazo, provocar sérios danos a nossa saúde: não costumamos dar a devida importância às composições de pomadas, cremes, sabonetes, shampoos, desodorantes, tinturas capilares, detergentes e sabões; nem nos lembramos de que já é comum a "injeção", de hormônios e vitaminas, através da pele, por meio de discos adesivos ou gelatinas. Tampouco damos a devida atenção ao correto manuseio de desinfetantes, limpantes e inseticidas (o gás dos nervos "Tabun", de Hitler, foi desenvolvido, em 1936, a partir de um simples defensivo agrícola!..). Assim, preferimos achar que não existem riscos e que "apenas os alérgicos" são sensíveis aos eventuais efeitos tóxicos desses produtos; nós, os chamados "normais", temos corpos saudáveis e "somos imunes". Ledo e ivo engano, como diria Carlos Heitor Cony ...

      2 - "SEGUNDA PELE"

      As roupas, de um modo geral, formam nossa "Segunda Pele". Incluem-se, aqui, tanto calçados e roupas diurnas como as chamadas roupas de cama (pijamas, camisolas, lençóis e cobertores); sem esquecer as toalhas e lenços, que esfregamos no corpo e no rosto. Resíduos químicos de sabões, amaciantes e limpantes (tecidos mal enxaguados), assim como fungos e ácaros (colchões, interiores de sapatos ou tênis, armários mal ventilados e divisórias ocas - do tipo "drywall" - são perfeitos refúgios e meios de reprodução), acabam depositados e alojados nas fendas da pele e podem provocar, no longo prazo, importantes danos à saúde. Assim, todas essas "coberturas provisórias" do corpo deveriam merecer atenção e cuidado muito especiais. Cá entre nós: existe coisa mais "besta" do que secar os pés, após um caprichado banho, e enfiá-los no sapato de véspera (de couro, ou lona, escuro e umedecido pelo suor), em cujo interior colônias de fungos cresceram, explosivamente, durante a noite?...

      3- "TERCEIRA PELE"

      Nossa casa (ou apartamento) acaba desempenhando a função de "Terceira Pele". De fato, com a finalidade de "deixar lá fora" a chuva, o vento, as temperaturas extremas e a insolação excessiva, a moradia será a nossa "terceira casca". Mas estará ela cumprindo, integralmente, essa missão?

      Experimente reunir a família e ler em voz alta:

      a) O projeto considerou, na implantação do prédio, a captação de radiações solares benéficas (germicidas e fungicidas)?
      b) As paredes externas são realmente estanques, não encharcando, com chuva, através de trincas nos revestimentos ou por fissuras em rejuntes de lajotas "nobres" (cerâmicas, pastilhas, pedras naturais, etc.)?
      c) As faces internas das paredes externas são secas (sem fungos ou pulgões) e os armários, nelas encostados, são isentos de bolores?
      d) As janelas possuem bandeiras superiores móveis que permitam arejar os ambientes mesmo na ausência dos moradores?
      e) Nosso apartamento possui divisórias ocas, capazes de alojar insetos?
      f) Alguém, da nossa família, vem sofrendo de coriza, rinite, bronquite, crises de asma ou de distúrbios semelhantes?
      g) Caso afirmativo, o médico foi informado das reais condições físicas e bolores de nossa atual moradia?
      h) E nós, leitores deste artigo, ainda preferimos acreditar que o clima da nossa cidade é o "único culpado" por todos esses problemas?...
      i) E quanto ao Papai Noel?... E, quem sabe, o Saci Pererê ?...

      4- NOSSA MENSAGEM

      As presentes reflexões, paralelos e ironias, talvez possam servir para que proprietários e administradores (principalmente em edifícios altos) adotem uma postura mais cuidadosa e prudente, pois estamos abordando algo que vai muito alem da simples conservação do patrimônio físico. Caso contrário, as "broncas indignadas", por infiltrações pluviais, continuarão esquecendo os seres humanos e se concentrando, apenas, nos eventuais pingos de sais calcários, que caem, dos tetos de garagens, sobre reluzentes e indefesos capôs de automóveis...

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